Ucrânia
Em fevereiro de 2022, encontrava-me na Ucrânia. Visitei várias cidades — entre elas Kyiv e Lviv — num momento de suspensão estranha e ambígua. Sabia-se que Putin concentrava tropas junto à fronteira, sob o pretexto de exercícios militares. Os Estados Unidos alertavam para uma possível invasão. Ainda assim, a maioria dos analistas, o próprio povo ucraniano e eu incluído não acreditávamos que fosse acontecer. Parecia inconcebível.
As fotografias aqui apresentadas foram realizadas, na sua maioria, na semana que antecedeu a invasão. Registam o quotidiano, a atmosfera e as texturas de cidades, vilas e aldeias num país que me marcou profundamente desde o primeiro contacto. Não há sinais de guerra iminente: há ruas, rostos, silêncio urbano, matéria, tempo normal. Um país inteiro ainda em equilíbrio.
Hoje, este corpo de trabalho é inevitavelmente nostálgico. Não por idealização, mas por consciência histórica. O que se vê são fragmentos de uma realidade que luta por continuar a existir. O grão como matéria visual, as kalinas enquanto símbolo nacional, o orgulho discreto de um povo — tudo ganha outro peso à luz do que se seguiu.
Estas imagens são o meu olhar sobre a Ucrânia antes da rutura. Um testemunho pessoal, sem agenda, que ficou suspenso no tempo. Espero que a paz chegue depressa para poder regressar e terminar o que comecei.
Foi também neste país que tive o privilégio de me tornar amigo de Bogdan Benyuk, uma das figuras maiores do cinema e teatro ucraniano, e de Svyatoslav Vakarchuk, o expoente máximo do rock na Ucrânia. Ligações humanas que reforçaram, ainda mais, a consciência de que a Ucrânia não é apenas território — é cultura, identidade e resistência.